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Entrevista a Gonçalo Xufre Silva

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"Trabalhamos para até 2020, termos 50% dos alunos do ensino secundário em percursos profissionais de dupla certificação."

O que pode levar um jovem a optar pelo Ensino Profissional?
Dos contactos que temos tido com jovens já diplomados ou atualmente estudantes no ensino profissional temos percebido que as razões mais significativas na opção dos jovens por este ensino prendem-se com a tomada de conhecimento da existência de soluções de educação e formação que respondem de forma mais adequada ao perfil desses jovens, por integrarem uma aprendizagem mais prática e, como tal, mais motivante. O ensino profissional garante aprendizagens que se fazem sobretudo em ação, com propósitos específicos que se traduzem na concretização de projetos. Ou seja, estamos perante uma modalidade educativa e formativa sobretudo centrada no aluno. O aluno é implicado diretamente no modo como aprende, existindo um maior envolvimento e este sente-se mais predisposto e motivado para a aprendizagem.
Além disso, há características específicas desta modalidade que cativam pela capacidade que tem em responder a questões concretas que afetam os mais jovens, como a proximidade ao tecido empresarial (potenciadora de emprego), um currículo modular e mais flexível (permite retomar mais tarde aprendizagens que tenham ficado para trás) ou o nível de certificação que se pode obter (nível 4 do Quadro Nacional de Qualificações, um nível acima ao dos cursos desenhados exclusivamente para o prosseguimento de estudos).

Vê o Ensino Profissional como um caminho mais vantajoso para um jovem?
Sem dúvida. O nível habilitacional que o ensino profissional permite obter (12.º ano) é a mesmo que esse jovem obteria nos cursos científico-humanísticos mas as aprendizagens realizadas permitem uma maior amplitude de opções terminado o secundário. Ao terminar o curso, o jovem estará perfeitamente apto a iniciar a vida ativa (dominando as técnicas necessárias e tendo desenvolvido um conjunto de atitudes que são muito necessárias no "mundo real") e, além disso, está em perfeitas condições de prosseguir estudos, se for esse o seu desejo.

Que medidas foram tomadas de forma a reforçar a ligação ao mercado de trabalho?
Uma das medidas mais recentes consistiu no reforço da carga horária da formação em contexto de trabalho (passou de 420 horas para 600 a 840 horas). Esta medida permite que os jovens tenham um maior contacto com o mercado de trabalho e inclusive que se criem laços mais consistentes entre essas empresas e os jovens, propiciadores de situações efetivas de emprego.
Outra medida, ainda em curso, prende-se com o redesenho das qualificações, tendo por base os resultados de aprendizagem (ou seja, o que o aluno deverá saber e ser capaz de realizar aquando da conclusão do seu processo de aprendizagem). Se as qualificações forem mais legíveis para os empresários será mais fácil tê-los como parceiros na conceção dos referenciais de formação e ajudá-los-emos na definição de perfis de emprego mais precisos para o recrutamento e seleção de colaboradores.
Gostaria ainda de referir o projeto (igualmente em curso) de garantia da qualidade do ensino profissional, tendo por base o Quadro de Referência Europeu de Garantia da Qualidade para o Ensino e Formação Profissionais (EQAVET). Ao promovermos a qualidade no ensino profissional, promoveremos também as ligações entre este ensino e o mercado de trabalho.

Qual a percentagem de alunos que opta por modalidades profissionalizantes?
Os dados disponibilizados pela Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, reportados ao ano letivo de 2013/2014, apontam para 44,8%, sendo certo que iremos trabalhar, de acordo com o Programa Nacional de Reformas "Mais crescimento, melhor emprego, maior igualdade", no sentido de podermos ter, até 2020, 50% dos alunos do ensino secundário em percursos profissionais de dupla certificação.

Pensa que, hoje em dia, se pode afirmar que as opções profissionalizantes são vistas pela sociedade portuguesa como uma opção tão válida como qualquer outra?
Não é fácil nem rápido mudar mentalidades enraizadas e as vias profissionalizantes ficaram prejudicadas, do ponto de vista da sua perceção social, com as medidas que foram tomadas após o 25 de abril, quando se pretendeu unificar o ensino secundário. Mas, nos últimos anos, temos feito grandes progressos nesta matéria, não só no que diz respeito ao alargamento da rede educativa e formativa mas também na perceção da qualidade deste ensino. Assim, são cada vez mais os jovens e as famílias que veem no ensino profissional uma opção tão válida ou até mais válida do que as restantes opções de qualificação. É aliás por este motivo que hoje os alunos do ensino profissional tem, em média, idades inferiores às que tinham há anos atrás. Nessa altura, os alunos do ensino profissional enveredavam por esta via, já como segunda escolha, depois de terem experimentado os científico-humanísticos. Hoje, muitos optam de imediato pelo ensino profissional, assim que terminam o 9º ano de escolaridade.

Que iniciativas tem a ANQEP promovido no sentido de valorizar o Ensino Profissional?
Especificamente com esse intuito, temos vindo a participar, todos os anos, em diversos eventos, com mostras exemplificativas do que se faz e de como se aprende no ensino profissional. Nos dois últimos anos, promovemos e realizámos uma iniciativa deste género em todas as capitais de distrito de Portugal Continental – o Roadshow do Ensino Profissional - e no ano passado lançámos o Dia do Ensino Profissional (que este ano iremos celebrar no dia 3 de junho). Além disso, elegemos vários diplomados, com percursos de vida e profissionais bem-sucedidos, e convidámo-los a serem Embaixadores do Ensino Profissional. Através destes Embaixadores, temos vindo a dar a conhecer as mais-valias deste ensino e foi com eles que lançámos o movimento social #somosensinoprofissional. Utilizamos ainda com regularidade as potencialidades das redes sociais para lançarmos desafios e concursos que ajudam a divulgar e a promover este ensino, através da evidenciação dos saberes e das competências que o mesmo proporciona aos jovens.

Qual o balanço que faz da aposta estratégica na criação dos Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTeSP)?
Estes cursos surgem como um trajeto natural de progressão de estudos especialmente preparado para os jovens que iniciaram no ensino secundário cursos profissionalizantes. Neste sentido, dão resposta a lacunas que existiam em termos de oferta formativa no ensino superior ou minimizam outras, se considerarmos que, nalguns territórios, já existia oferta de cursos de especialização tecnológica.
Na realidade, muitos jovens, vindos de cursos profissionais, tinham resistência em prosseguir estudos através de percursos meramente académicos. Além disso, os CTeSP foram estruturados numa lógica de atuação em rede com as entidades que, no terreno, asseguram cursos profissionalizantes de nível secundário.
Tudo isto, a par dos créditos que concedem à progressão de estudos de nível superior, permitiu que estes cursos tenham sido muito bem aceites quer pelos jovens, quer pelas suas famílias, quer ainda pelas empresas locais.